O retorno ao lugar que agora é só vazios

Precisei ir ao trabalho na semana passada, coisa rápida. Não ia lá há mais de um mês. Senti certo desconforto em ter que ir. Em parte, porque me adaptei à nova rotina de não precisar ficar presa no prédio o dia todo.

Chamei o Uber. Ele de máscara e eu também. Conversa rápida para o curto trajeto. Mas deu tempo de me contar sobre como está difícil fazer corridas nesse período de pandemia.

Cheguei no prédio e tudo já parecia diferente. Um hall de entrada geralmente com várias pessoas conversando, carros parando para embarque e desembarque, gente chegando para trabalhar. Agora, ninguém…

Só uma recepcionista e alguns seguranças. Todos também de máscara. Não vi seus sorrisos, mas acho que entenderam o meu desejo de bom dia.

Senti vontade de chorar. O elevador, que costuma demorar tanto, chegou rápido e eu era a única pessoa dentro dele. Algo extremamente difícil em situações normais. No salão aonde trabalho, ninguém. Nenhum dos meus amigos estavam lá.

Nenhuma gargalhada, nenhum bolo para comemorar qualquer coisa, nenhum telefone tocando. Só silêncio e vazio. Quis chorar.

Peguei o computador e dei um oi, de longe, para dois amigos que estavam trabalhando na outra sala. Os únicos do andar. Fui embora sem saber quando poderei voltar.

Um lugar antes tão cheio e que me era tão familiar. Agora parece outra coisa. Não sei o que é. Talvez a gente precise se conhecer de novo.

Publicado en español por Masticadores de Letras, miralo aquí.

Foto: Nicole Guimarães. Céu de Brasília, 2018.

17 comentários sobre “O retorno ao lugar que agora é só vazios

  1. mariogordilho

    Nossa, impactante! Texto denso, Nicole! Muito bom, pois retrata fielmente o sentimento da maioria. Estou exatamente assim. Sentindo falta do calor humano, principalmente. Somos, de fato, seres sociais. Que lição dura é essa pela qual estamos passando. Compartilhei seu texto com os colegas da minha equipe, para reflexão. Obrigado!

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    1. Obrigada por compartilhar, Mário! E fico feliz por saber que o texto te tocou, de alguma forma. Sim, esse processo está sendo bastante duro. Um desafio olharmos para nós mesmos, sem muitas distrações. Com certeza, aprenderemos muito! Boa semana pra você!

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      1. Hudson

        Consigo imaginar o que você sentiu! Senti alguma coisa parecida quando vi o vazio no salão de vcs após o tsunami no Deban! Mas, lembra, conseguimos superar e ficamos mais forte! E assim será, acredite!

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  2. VEM comigo!

    É uma nova realidade que temos que aprender lidar com as mudanças que tem surgido em torno de tudo isso. Ainda levará um tempo para para a vida voltar ao normal. Enquanto não acontece, vamos vivendo os seus desconforto..

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  3. Tenho a mesma sensação quando preciso ir ao trabalho revolver alguma coisa. É estranho e dá medo, gera desconforto. Um silêncio que não acolhe e traz paz, é um silêncio de tristeza. E certamente nada será como antes.

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  4. Oi Nicole…esses dias todos têm sido para tanto: provar a nós mesmos, coletivo, os líderes, solidariedade, desapego, tantas renúncias hoje e ainda amanhã, confesso que estive mais alentado sobre o “novo” normal que nos aguarda. Então, o que olho é justamente uma volta ao velho normal. Penso que cada um compreendendo com consciência o que está acontecendo poderemos ter o “novo” normal. O vazio encontrado por ti, no local de trabalho, de alguma maneira não deixa de ser uma metáfora de nós mesmos, em nível coletivo. Claro que há ações maravilhosas mas não serão apenas para o momento! Estamos realmente preparados para um longo período de vazios e outros “normal”? Desculpe me alongar e nem escrevi metade…,gostei muito da tua reflexão, sensível e lúcida. Ainda é noite, mais o dia já vem. O meu abraço.

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    1. Bom dia, meu amigo! Acredito que ainda não estamos preparados para o “novo normal”, que imagino que seria um mundo solidário, mais igualitário e fraterno.
      Ainda vemos notícias absurdas nos noticiários, como o jovem que foi assassinado pela polícia, no Rio, quando estava dentro de casa. Casos como esse entristecem e mostram o quanto ainda precisamos evoluir em prol do coletivo…
      sigamos fazendo nossa parte, não é? 🌻

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