Quando a liberdade de uns é prejudicial a vários

Estava um silêncio absoluto quando comecei a escutar uma gritaria na quadra e uma música nas alturas. Não entendi nada, porque Brasília é o lugar mais silencioso que conheço. Olhei o celular e eram 3h da madrugada.

Espiei na janela e não conseguia ver nada, só ouvia a algazarra. Parecia um grupo de amigos bêbados que resolveu parar ali, ligar o som e falar alto. Mas idosos estavam dormindo, bebês estavam dormindo, doentes estavam dormindo, trabalhadores estavam dormindo.

Não deu dez minutos e começou o bate-boca. Várias pessoas foram para as janelas e mandaram parar com o barulho. Começou um ringue de xingamentos também. Foi até meio assustador, vi como muitos de nós estamos com a paciência por um fio. O grupo desligou o som e calou-se.

Foi difícil voltar a dormir depois dessa agitação e fiquei pensando sobre como, às vezes, somos egoístas no uso da nossa liberdade. É por isso que precisam ter tantas leis que controlam a gente. Desaprendemos a viver livres em comunidade.

É raro quando o coletivo é colocado em primeiro plano, geralmente é o famoso: Farinha pouca, meu pirão primeiro.

Admito que me acostumei ao silêncio brasiliense. Pode ser que para outros o barulho seja aceitável, né?

Foto autoral. Lírio da paz da minha vó / Rio, 2020.

24 comentários sobre “Quando a liberdade de uns é prejudicial a vários

  1. Nicole, no caso que descreveu tudo bem, mas “É por isso que precisam ter tantas leis que controlam a gente.” não concordo. Leis são feitas para o controle social, manter o sistema que estamos, que é a verdadeira prisão. As prisões estão abarrotadas de pobres, pretos e putas. Os verdadeiros criminosos ditam as leis.
    Espero que me compreenda.

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    1. Léo, não tinha pensado nisso quando escrevi. Concordo plenamente com você… as leis são impostas para nos prender ao que está posto e para seguir o que um grupo de homens acha que é o ideal para nossa vida. Sistema totalmente falido. Quando será que a maioria vai notar?

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    2. Hudson

      Infelizmente há muitas pessoas que não sabem usar a sua liberdade e, por egoísmo ou falta de empatia, invadem a liberdade do próximo! Mas há, também, pessoas com tolerância zero, que se incomodam com tudo, até mesmo com o choro de uma criança no apartamento ao lado! E as leis são necessárias, sim! Ruim com elas, pior sem elas!

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      1. Tocou num ponto muito bom, Hudson! Tem gente que não dosa mesmo e se irrita com tudo. Lembrei da situação de bebês que choram no avião. Tem pessoas que ficam com raiva! Como pode? E a mãe fica super envergonhada, mas por uma situação fora do controle dela.

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  2. Existe a lei do silêncio, a partir das 22:00hs. Não importa se é individual ou em grupo. Tem que ser cumprida. Simples assim. O que não é simples são as atitudes das pessoas em não respeitar o seu próximo. Independente da lei, as pessoas deveriam se colocar no lugar das outras. Tem gente que trabalha, tem gente que estuda, tem gente que está acamada. Respeito é bom e eu gosto. Nossa, que revolta!!!! Pronto, falei.
    Abraços!!!
    Ah, ia me esquecendo.Gostei do texto .Parabéns!

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    1. Também fiquei muito revoltada!!! Mas eu sou meio bloqueada com briga e fui a vizinha que ficou quieta, outros gritaram por mim. É muito estranho como muitos não dão atenção ao outro, isso faria ter mais cuidado. Abraços e obrigada! 🙂

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  3. mariogordilho

    Nicole, a palavra chave do texto, na minha opinião, é egoísmo. Na verdade, todos nós, em um momento, já fizemos o papel desse grupo a que vc descreveu. Já fomos ou seremos um dia os barulhentos das 3 da manhã, cada um do seu jeito. Basta um pequeno descuido na manutenção do nosso ego. Rapidamente me lembrei de uma passagem minha. Levei há alguns anos a minha filha pra conhecer o Maracanã. Saí de lá constrangido, aborrecido, pois havia próximo a nós um grupo de jovens com um rapaz que, no intuito de se mostrar para suas amigas, passou o jogo inteiro xingando os palavrões mais criativos e pesados possíveis. Pensei até em pedir pra ele maneirar um pouco, em respeito a uma menina de 10 anos, mas como ele estava muito alterado, preferi engolir em seco a arrumar uma confusão com minha filha. Contudo, ao chegar em casa, refletindo sobre o fato, percebi que eu já devo ter incomodado diversas pessoas, famílias, exatamente da mesma forma. Pois quando colocamos todo nosso foco em nosso ego, nada mais existe ao redor. Depois disso, virei outra pessoa em estádios. Eu aprendi sofrendo na pele, após breve reflexão, com a lembrança da ideia base na qual tento pautar minha vida: não fazer ao próximo o que eu não gostaria que fosse feito comigo. Empatia. O ego é muito importante, é o que nos move adiante. Viver em torno dele que é o problema, pois a partir daí nossa liberdade individual suplanta qualquer direito de terceiros. E voltamos mais alguns passos à barbárie.

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    1. Mário, acho que esse foi seu melhor comentário! Adorei! Todos nós estivemos do outro lado, com certeza. Por ego, descuido, calor do momento. Temos dificuldade em colocar o coletivo em primeiro lugar, mas estamos caminhando. Engraçado que fiz o mesmo exercício que você e lembrei como já dei altas gargalhadas com meus amigos. Provavelmente incomodamos alguém. Por isso, talvez, também estranhei quando virou trocas de xingamentos. Minha reação foi ficar quieta, como a sua no estádio. Não fui para a briga. Essa vida e os vários lados de uma mesma moeda 🙂

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  4. mariogordilho

    Nossa, que ótimo que gostou! São assuntos que ficam represados, não tenho com quem conversar temas desse tipo. Seu blog me instiga, é uma forma muito legal de se expressar e trocar visões, reforçar as nossas. Espero estar sempre em sintonia!

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  5. moçacombrincodepérola

    Eu amo o silêncio também. Gosto de música, mas a gente precisa saber respeitar o outro. Aqui no Maranhão esse tipo de desrespeito é muito comum. A casa treme do barulho alto.

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  6. Bruno Morais

    “É por isso que precisam ter tantas leis que controlam a gente. Desaprendemos a viver livres em comunidade. É raro quando o coletivo é colocado em primeiro plano, geralmente é o famoso: Farinha pouca, meu pirão primeiro.” Farinha pouca, meu pirão primeiro; salve nacionalismo! Irei usar esse dito popular mas com certeza, me era desconhecido.

    A sociedade civil se organiza perante leis, necessárias, mas ao meu ver, valores hão de ser flexíveis, dependendo do contexto. Não sei em que bairro você mora Nicole, mas aqui em Águas Claras, são egos desfilantes, melindrosos e reativos em suas máximas, com suas exceções.

    Estamos em um mundo com ambientes de diversidades, temos que lidar com ela, ter empatia pode ser mais que somente cobrar empatia quando a situação é periclitante somente pra você, mas entender o outro.

    Que todos tenhamos olhares empáticos, majoritariamente, perante situações de tensão, e se não der, tudo bem também, somos humanos, estamos em constante aprendizado.

    Conseguir se comunicar com diversas comunidades, em diversos contextos, pra mim, é necessário. Eu quero ser uma ponte ou ser um muro? Tudo isso, é sobre se conectar com outros universos. Pra se viver bem, tem que ter carisma e conteúdo. Viver de forma a complementar com a natureza! Agora jovem sem educação merece uma pisa, bem dada, a quem cabe dar. rs

    Abreijos Nicole, te indico ver a entrevista do Emicida no Roda Viva, no youtube, do dia 27 agora. Uma aula de sociologia e cultura!

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    1. Aula foi esse seu comentário! Olhares empáticos, ser ponte e se conectar com outros universos são as palavras chaves do seu texto, pra mim. E tá aí um desafio.

      Outro dia assisti um vídeo em que a moça falava sobre ego espiritual. Achei o máximo. Ela falava sobre como às vezes a gente se coloca em um lugar diferente do outro , tipo: “eles ainda estão aprendendo”, “eles ainda não despertaram”. E esquecemos que todos somos um, todos estão na mesma caminhada. A evolução é coletiva.

      Enfim, seu comentário me fez lembrar dessa situação. Empatia talvez tenha a ver com isso. A gente “descer do salto” e olhar de igual para igual.

      E todos estão falando sobre essa entrevista. Vou assistir! Obrigada pela dica!!

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    1. Tem outros comentários muito bons, Gabi… E concordo com o Mário quando disse que, em algum momento, nós já fizemos algo que incomodou outra pessoa. O bom é que hoje podemos ter a noção de que não foi legal. A reação com xingamentos acho ruim também, não custa nada pedir com educação. Tá todo mundo estressado!! hahaha

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      1. A com certeza, Nic! Foi isso que quis dizer com o aprender o que não queremos ser. Em muitas situações aprendemos com nossos próprios erros e em muitas outras acho que podemos aprender com o erro dos que estão a nossa volta. Acho impossível dizer que evoluímos e nunca mais erraremos, mas criando essa consciência de tentar ser melhor e mais empático já é um grande começo e ainda ousaria dizer que nos traz um nível maior de tolerância com o outro.
        E sobre os xingamentos também acho péssimo, afinal se o barulho do outro é considerado falta de educação, xingá-lo seria tentar combater a falta de educação com mais falta de educação. Zero sentido rs

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