Mar de gente

Estava reflexiva no sábado e sem encontrar as razões aparentes. Até resolvi andar de trem, depois de anos e traumas, para chegar até a casa dos meus avós. Enquanto mirava a paisagem nada bela do lado de fora, recebi mensagem de uma amiga com um link dizendo para eu encaminhar para o meu pai.

Era o final de semana do Círio de Nazaré, em Belém do Pará. Eu estava sentindo. Nem penso duas vezes antes de responder: é o evento mais emocionante que presenciei na vida. Nos três anos em que morei lá, senti diferentes sentimentos durante o mês de outubro. E demorei para entender como funcionava.

O Círio é o Natal dos paraenses. E um Natal que dura praticamente trinta dias. São centenas de pessoas caminhando do interior até a capital para pagar suas promessas. Famílias preparando a maniçoba e o pato no tucupi. Casas cheias recebendo turistas que chegam de diversas partes do país.

A procissão do segundo domingo de outubro é a que mais me tocava o coração. Algumas pessoas faziam todo o percurso ajoelhadas naquele forte calor amazônico. Outros, tinham casas de isopor na cabeça para agradecer pela moradia nova. Crianças curadas participavam vestidas de anjos. Jovens com livros na cabeça porque foram aprovados em prova.

O Círio de Nazaré é uma manifestação cultural que transcende religião, sem dúvidas. Reúne milhões de pessoas de todas as classes sociais nas ruas. Suados, chorando, agradecendo, pedindo. A procissão passava bem na esquina da minha rua, a Carlos Gomes. Lembro que eu parava ali e não terminava o percurso.

Eram músicas, pétalas de rosas, papéis coloridos jogados dos prédios. Gostava de observar. Sempre desciam lágrimas inexplicáveis do meu rosto. Como diz a música Eu sou de lá:

É coisa que não sei dizer… Deixa pra lá. Terá que vir pra ver com a alma o que o olhar não pode ver. Terá que ter simplicidade pra chorar sem entender. Quem sabe assim verá que a corda entrelaça todos nós. Sem diferenças, costurados num só nó.

Pela primeira vez em 227 anos, quem recebeu rosas do céu foram os hospitais da cidade. A fé segue no coração do mar de gente.

Foto do Círio Fluvial de 2014. Por Marcello Casal Jr / Agência Brasil

25 comentários sobre “Mar de gente

  1. Alex Antunes

    Bom dia, Nicole!
    Que grata surpresa ver um texto seu falando da Mãe de Jesus: Nossa Senhora para os católicos.
    Isso é uma das heranças da colonização portuguesa no Brasil. Os portugueses são muito devotos de Nossa Senhora e transmitiram essa devoção aos brasileiros.
    A prática de fazer promessas também é uma herança da religiosidade portuguesa. Eu também já fiz muitas promessas à Nossa Senhora, a Jesus e aos santos, principalmente quando era adolescente. Mas, depois de perceber que tinha muitas dificuldades de cumprir as promessas feitas, e, aconselhado por vários padres, eu compreendi que, no meu caso era melhor não fazer mais promessas, mas apenas rezar com fé e perseverança pela graça desejada, sem fazer promessas. Mas não julgo quem faz. (Parabéns a quem faz promessas e as cumpre!!!) Apenas compreendi que, no meu caso, não era prudente eu fazer promessas.
    Aproveito o tema do texto para partilhar um trecho da Carta Apostólica ROSARIUM VIRGINIS MARIAE, sobre o Rosário, ou digo, de maneira popular, sobre a oração do Terço.
    “Neste processo de configuração a Cristo no Rosário, confiamo-nos, de modo particular, à acção maternal da Virgem Santa. Aquela que é Mãe de Cristo, pertence Ela mesma à Igreja como seu « membro eminente e inteiramente singular »(19) sendo, ao mesmo tempo, a “Mãe da Igreja”. Como tal, “gera” continuamente filhos para o Corpo místico do Filho. Fá-lo mediante a intercessão, implorando para eles a efusão inesgotável do Espírito. Ela é o perfeito ícone da maternidade da Igreja.” (João Paulo II, Rosarium Virginis Mariae, n. 15)

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  2. Alex Antunes

    Nicole, gostaria de aproveitar o assunto do texto de hoje e partilhar dois pensamentos dos santos sobre a Virgem Maria. Espero que você e seus leitores gostem das citações. Vejam!

    “Maria foi verdadeiramente constituída por Deus auxílio dos cristãos.” (São João Bosco)

    “Maria é minha Mestra, que me ensina sempre como viver para Deus. O meu espírito resplandece na Vossa mansidão e humildade, ó Maria.” (Santa Faustina Kowaslka, Diário, n. 620)

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    1. Obrigada pelas citações, Alex! 🙂 E achei ótima sua estratégia de não mais fazer promessas. No fundo, sabemos que o que importa são nossas ações do dia a dia e a gratidão no coração. Abraços pra você! 🌻

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      1. Alex Antunes

        De nada, Nicole! 🙂
        Fico contente de você ter compreendido minha decisão de não fazer mais promessas.
        Concordo com você. O que importa são nossas ações do dia a dia e a gratidão no coração. (Estou repetindo a sua frase, para memorizá-la, pois gostei muito dela. 😉 )
        Abraços para você também! 🌻

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  3. Ja ouvi falar mtas vezes sobre o Cirio de Nazaré…parentes e meu Pai são de Belém…nao conheco pessoalmente..mas creio ser uma festa com bênçãos divina sem duvida…a Fé sentida no coração faz um bem mto grande a alma e coração!!

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  4. Hudson José Capanema

    Imagino o quão emocionante deve ser participar do Círio de Nazaré! Não tive, ainda, a oportunidade de ver de perto, mas vi inúmeras reportagens e é impressionante a fé das pessoas!
    Você disse que é uma manifestação cultural que transcende religião, mas o Círio é uma festa católica em homenagem a Nossa Senhora de Nazaré! E aí vejo um paradoxo, muito provavelmente por desconhecimento, por não não conhecer de perto essa grandiosa festa. Certamente, os pagadores de promessa são devotos de Nossa Senhora de Nazaré, e sabemos que os não católicos não aceitam essa devoção! Mas, é claro que qualquer pessoa, independente de religião, pode gostar e se emocionar com a grandiosidade da festa e com a fé dos pagadores de promessas.
    Parabéns, Nicole, por mais um lindo texto. 😊

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    1. Então, Hudson, o período do Círio envolve todo mundo, não apenas os católicos. É algo inacreditável. Tem evangélicos e espíritas, por exemplo, que ajudam distribuindo água durante as procissões, que fazem o percurso e até mesmo pagam suas promessas. Chamo de manifestação cultural porque é tipo um patrimônio imaterial mesmo. A história do círio é incrível e tem mais de 200 anos.
      Ah, você tem que ir! Acho que vai se emocionar muito. Mas esteja preparado para o calor!!! Beijos e obrigada 😃💜

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      1. Hudson José Capanema

        As tuas palavras de entusiasmo me deram mais vontade de conhecer o Círio!
        Quanto ao calor, tivemos treinamento intensivo, há poucos dias, em Brasília, de como resistir! Bjs

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  5. Bruno Morais

    Bom,meu banho de cultura e sabor de sexta foi tomado. Uma tremenda oração aos trejeitos do nosso país esse texto! De muita sensibilidade e olhar apurado, uma grande virtude, um excelente final de semana Nicole. 😀

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  6. Sabe que eu nunca tinha ouvido falar dessa celebração? Mas uma amiga minha estava em Belém no dia 12/10, e aí ela compartilhou algumas fotos e um texto a respeito. Sou doida pra conhecer Belém, e nem imaginava que havia algo assim!

    No dia 12, passei pela estrada de Aparecida do Norte, e encontrei muitas pessoas também em caminhada. Achei tocante…

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    1. Vale a pena a experiência, Thaís! Principalmente para quem gosta de conhecer novas culturas. Ah, o círio acontece no segundo domingo de outubro. Não necessariamente no dia 12/10. 🙂 Pena que sua amiga foi esse ano, não deu pra ver a rua lotada. Beijos!

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