O terror dos conversadores

O convite era para provar originais latkes, tradicional receita judaica presente no Hanukkah, a festa das luzes. Em 2020, seu período compreende os dias 10 a 18 de dezembro. As tradições do Judaísmo sempre despertaram intensa curiosidade em mim. Não sei o motivo.

Com o espírito curioso de sempre, aceitei prontamente. Apenas cinco pessoas, sem aglomerações. Dois judeus. E muitas expectativas criadas. Já tinha várias perguntas formuladas na cabeça e fatos que gostaria de saber. Ah, e nunca tinha ouvido falar sobre Hanukkah, muito menos sobre os bolinhos de batata ralada.

Chegamos na casa, área aberta com vista bonita, latkes de diferentes formatos, banco confortável. Estava perfeito demais para ser verdade. E lá vem o banho de realidade. O terror dos conversadores. Uma das convidadas não parava de falar sobre ela mesma. Nenhum segundo, nem para respirar um pouquinho.

Quando achava que viria uma brecha para perguntar, ela emendava com temas minha faculdade, minha cidade, meu mestrado, meu trabalho. Não tinha espaço para conversar. Que frustrante! Não tive saída a não ser guardar minhas dúvidas no bolso, ouvir até onde aguentei e voltar para casa. Fui embora com a lembrança de duas moedas douradas de chocolate e a certeza de que quem fala muito pouco escuta.

Para matar a curiosidade, pesquisei e aprendi que o coração do Hanukkah é o acender da menorá, o candelabro de sete braços. Na primeira noite da festa, acende-se apenas uma chama. Na segunda, mais uma chama. Até que, na oitava e última noite, todas as oito luzes são acesas. Sem querer, descobri mais luzes sendo acesas no planeta.

Você também prefere boas conversas ao invés de monólogos?

Foto autoral. Rosas do caminho / Dezembro, 2020.

47 comentários sobre “O terror dos conversadores

  1. Nicole,
    Realmente a incontinência verbal acaba com a possibilidade de uma boa conversa e torna tudo entediante.
    Mais uma vez temos um assunto em comum: escrevi sobre isso em minha crônica FALA! caso queira dar uma olhada. São as coincidências de tema e pensamentos.
    Parabéns pelo texto!
    Abraços!

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    1. Eu lembro dessa sua crônica, Antonio! Por sinal: mais uma fantástica! O que acho engraçado é que às vezes o tema vem na minha cabeça, mas sem o conteúdo fechado. Passa um tempo, passo por alguma situação, leio algo e o texto sai. Com certeza, ter lido sua crônica também inspirou.
      Abraço grande e obrigada!

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  2. Sim, boas conversas são sempre boas fontes de aprendizagem e conhecimento. Mas entendo o que dizes, hoje em dia, as pessoas passam mais tempo a falar do que a ouvir os outros, procura-se mais vangloriar do que valorizar. Tempos estranhos estes, o tempo com sua falta de tempo para outros.
    Um forte abraço Nicole.

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    1. Tenho até dúvidas se é questão do momento atual, sabe, Irina? Penso que tem a ver com a personalidade da pessoa ou até mesmo o momento de vida que está passando. Não sei! Fico bem frustrada quando não consigo nem perguntar. Abraços, querida!!

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  3. Deve ser totalmente frustrante não ser capaz de fazer este hóspede perceber que não deixar que os outros falem é extremamente irritante.
    Pelo que entendi a palavra verborragia, ela se refere a essa tendência.
    Na verdade, é um sintoma de algum problema psicológico básico, geralmente estados maníacos, estados de agitação e ansiedade.
    E, infelizmente para ele, esse assistente tinha uma pessoa assim.
    Além disso, agora sei mais sobre este feriado judaico. Interessante sua postagem.
    Manuel Angel

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    1. Que troca boa, Manuel! Nunca tinha ouvido falar sobre “verborragia”, vou ler sobre isso. Também imagino que pessoas que falam sem parar estão passando por algum momento de ansiedade ou estados agitados da mente. Fico feliz por ter apresentado algo novo com o texto! Também não conhecia essa festa judaica. Grande abraço!

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  4. Alex Antunes

    Nicole, compreendo o quão decepcionante e frustrante é não poder se expressar num momento de conversação. Como você mencionou anteriormente , o Brasil é o país com os mais alto índice de ansiedade. Não conheço essa pessoa que você mencionou, mas, como alguém que sofre de ansiedade, posso dizer que já experimentei situações em que necessitava falar muito para aliviar a ansiedade. Não que eu fizesse isso de propósito ou com consciência, mas era como uma válvula de escape. Pode ser o caso dessa convidada.
    Infelizmente vivemos em um mundo muito frenético e individualista, onde as pessoas perderam o senso de comunidade e isso acaba gerando indivíduos com uma dor interior que precisa de alguma forma ser expressada, ainda que inconscientemente. Não sei se era o caso dessa convidada, mas lembra casos semelhantes.

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    1. Alex, lendo os comentários acabei tendo mais empatia pela moça. É verdade, pode ser que ela esteja passando até por um momento de sofrimento e a forma de colocar para fora ou fugir dele é falar sem parar. Muito boa essa visão! Vou ler mais sobre o tema para trazer mais conteúdo. Abraço e obrigada!! 🙂

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      1. Alex Antunes

        De nada, Nicole! Fico contente de saber que meu comentário provocou empatia em você em relação à moça tagarela. 🙂
        Infelizmente, o mundo de hoje é um mundo muito frenético, que não permite mais as pessoas pararem um momento e conversarem sobre os mais variados assuntos que vão na alma. Antigamente, no tempo dos nossos avós, era comum as pessoas terem um tempo para conversar. Hoje em dia isso não é mais comum nem possível. Daí que algumas pessoas vão acumulando assuntos dentro da alma e uma hora tem de colocar para fora. 🙂
        Um abraço! 🤗

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      2. É mesmo, Alex! Parece que está todo mundo sem tempo, tendo que estar fazendo algo o tempo todo. O excesso de tecnologia pode estar prejudicando essa aproximação também, né? Estamos esquecendo como é uma boa conversa. Uma hipótese!

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      3. Alex Antunes

        Nicole, eu sou um pouco suspeito para falar da tecnologia, pois eu sou fascinado com a mesma; talvez por não ter tido acesso a ela durante a minha infância. Mas reconheço que a tecnologia tem um lado negativo que pode substituir ou enfraquecer os relacionamentos reais (oposição entre real x virtual).

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      1. Alex Antunes

        Pois é, Nicole! Isso acaba se tornando uma ironia interessante. Logo nós brasileiros que temos fama de felizes e alegres, estamos tendo problemas com ansiedade, seja através de um familiar, amigo ou conhecido. Ou pior ainda, nós mesmos sendo acometidos por esse mal. 😢
        Seria interessante discutir mais sobre o assunto. Quem sabe os cientistas e profissionais de saúde poderiam estudar mais sobre esse assunto. Porém tem o problema do tempo e do dinheiro, né? Quem iria bancar uma pesquisa dessas? Em países ricos, o estado financia tais pesquisas. Mas no nosso país é complicado, pois são tantas necessidades. Mas não custa sonhar e ter esperanças.

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      2. Tem bastante material por aí sobre ansiedade, mas informações soltas. As linhas que mais gosto são as ligadas à espiritualidade, não apenas a medicina isoladamente. Acredito que nossa saúde é integral e envolve nosso bem-estar físico, espiritual e mental. Temos que cuidar com carinho de tudo 😉

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      3. Alex Antunes

        Você está certa, Nicole! A saúde engloba o nosso bem estar psicológico e ESPIRITUAL, não apenas físico. A propósito, a ONU reconheceu isso, dizendo que a saúde envolve o bem-estar físico, psicológico e espiritual. Pena que não tenho as referências dessa afirmação, pois às vezes a gente lê comentários na internet e nem em todo comentário dá pra citar fontes.
        Como você observou, é uma pena que a medicina nem sempre faça uma relação com o espiritual. Alguns médicos fazem isso, mas são uma minoria.
        Vou ver se acho alguma informação com referência ao espiritual. Se achar, compartilho com você.

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      4. Alex Antunes

        Nicole, eu também gosto de entender a saúde com relação à espiritualidade. 😏 O ser humano é um ser religioso e não apenas racional. Não somos apenas cérebro (corpo), temos também uma alma. 😇

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  5. Nicole, sou um imã para pessoas assim. Com o tempo, aprendi a desenvolver técnicas para aguentar os excessos de “eus” e continuar bem na fita: pareço atenta a conversa contudo, estou com minha mente a léguas de distância (risos).

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  6. Renata Rodrigues

    Particularmente falando sou mais ouvinte do que falante…mas isso nao quer dizer que goste de ouvir a pessoa em dada situação como essa na qual vc citou..que ela fique a falar e falar…sao pessoas egocêntricas em excesso…tudo que e demais nao e bom…em reuniões então onde ate o palestrante da oportunidade de ouvir e nao so falar..tende ter o respeito..o debate so acontece se houver vias de 2 mãos…e direitos iguais.é mais uma questão de discernimento..personalidade querer ser o centro das atenções..nem sempre sabedoria adquirida em dado assunto te da o direito so de vc falar..sabedoria é para poucos.
    Boa Noite Nicole..Fica c Deus

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    1. Fico mais de ouvinte também, principalmente por gostar de perguntar/entrevistar. Ruim é quando a gente fica num papel passivo de só escutar sem conseguir se expressar. Meu pensamento voa e não presto atenção em casa.
      Gostei do seu exemplo da palestra! Tenho muita dificuldade em acompanhar apenas uma pessoa falando o tempo inteiro como se ela já soubesse toda a verdade (e lá existem verdades?). Por isso não sou chegada a missas/cultos/palestras, acho muito distante e sem troca. Beijocas e boa noite!

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      1. Renata Rodrigues

        Verdade Nicole acho que tem de haver essa troca ..tbm nao gosto so de ouvir me da sono kkkk agr se for algo interessante mesmo que eu tenha so de ouvir nao acho ruim…exemplo palestra espirita,sempre que possivel frequento uma casa …ai sim vou e me concentro pq me faz bem ouvir o palestrante..e o curso espirita preenche esse lado de questionamentos la sei que dão oportunidade de perguntarmos….abraço fraterno.bj Nicole

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  7. Renata Rodrigues

    Sim..concordo c Vc Nicole…o lugar no qual frequento so gosto de ir em um dia específico pelo simples fato de sentir me mto bem pela energia espiritual e pela palestrante ..saio de la leve revigorada…eu simplesmente sinto a presença da espiritualidade e de DEUS…e que bom que vc esta aprendendo por outros meios..pq nao importa qual e sim se encontrar e ter respostas q necessitamos ne.bj

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  8. As pessoas já desaprenderam a conversar, se é que um dia souberam. A sociedade é composto de indivíduos adoentados que, por essa condição, possuem uma enorme demanda pessoal de falar. E acabam entrando em conflito, porque outros também passam pela mesma necessidade. Então fica aquela disputa de mil monólogos num mesmo cubículo, ninguém se ouvindo, todo mundo falando. Se, ao menos, o que as pessoas dissessem fosse interessante, seria menos danoso, mas geralmente, elas estão numa espécie de catarse vazia de autocontemplação de seus minúsculos interesses e feitos. Eu queria mesmo é me sentir em uma mesa pra dividir momentos, mas sei que isso não só é raro, mas, talvez, impossível. Eu não frequento festas, porque sei o quanto as pessoas podem ser vazias e cruéis. Esses eventos sazonais são piores ainda, porque as pessoas costuma se se cercar dessa oportunidade incomum pra exercer seus espetáculo agendado.

    Trouxe um presente de final de ano:

    https://rodrigomeyerauthor.wordpress.com/2020/12/18/curiosidade-nicole

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    1. Ahhh adorei demais!!! Obrigada! Várias curiosidades que eu não sabia. Fique feliz!

      Sobre seu comentário aqui, talvez precisamos entender as razões que fazem o outro apenas falar e não ouvir. Necessidade? Dor? Sofrimento? O mundo sufoca tanto as emoções, às vezes, que muitos não conseguem ouvir mais nada. Nem aquilo que fala. Abraços!!!

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      1. Geralmente, quem fala muito não está ouvindo o que fala mesmo, está só em modo automático pondo pra fora. São ‘necessidades’ sentidas, mas é fruto de desequilíbrio prévio. Raramente as pessoas estão mentalmente estáveis a ponto de não gerar desprazer ou conflito em sociedade ou mesmo sozinhas. Às vezes o negócio é desviar da socialização. rsrs Eu não participo dessas reuniões familiares ou sazonais, pra não me incomodar com os outros, nem incomodar os outros comigo mesmo. rsrs Você é uma pessoa que gosta de ouvir o mesmo tanto que gosta de falar?

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      2. Isso é bom. Eu sou curioso pelos outros, mas quando fico perguntando às pessoas, elas não gostam ou não sabem o que responder. Às vezes a gente vai com muita sede no poço e tá sem água. rsrs Então, geralmente, eu fico procurando textos e vídeos, que aí já garanto que as pessoas estejam falando algo. Tem sido muito raro traçar conversas com pessoas.

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      3. De certo que eu acabo atraindo muita gente problemática, por conta da diversidade, mas já desisti de tentar filtrar as pessoas. Eu escolhi ler a mídia das pessoas primeiro, assim fico sabendo em que patamar dá pra traçar uma conversa, por exemplo. Mas não é todo dia que encontro um blog ou outro site que vale a caçada. rs Devia ter um Google Treasures. rsrs

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  9. Nossa, uma pena quando isso ocorre, mas não sei se a pessoa seria ela mesmo egocêntrica, talvez ela seja carente de atenção e nem tenha percebido o ocorrido. As vezes até percebe, mas já foi longe demais. Eu já caí nessa armadilha várias vezes, e venho trabalhando isto para não ser o chato da vez! Não é falta de interesse no outro, as vezes é ser sem noção mesmo.

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  10. hudsoncapanema

    Claro que prefiro uma boa conversa, de preferência em uma mesa de bar e com boas companhias! E que saudades tenho dessas conversas!
    Imagino tua frustração por perdido a oportunidade de saber um pouco mais dessa festividade judaica e, ainda, ter presenciado um monólogo!
    Difícil julgar, difícil saber o que passa na cabeça dessa conversadora compulsiva!
    Você, com certeza, conseguirá as informações que você queria de outra forma e a conversadora continuará a azucrinar outras”Nicoles”.
    Sabe o que me incomoda mais do esses monólogos? Conversar com alguém que não te olha nos olhos! Uma certa vez, estava eu em um evento social de quando eu era Fiscal de Tributos de MG, e comecei uma conversa com um senhor que virava a cabeça 45 graus. Depois de alguns angustiantes minutos, eu discretamente Claro que prefiro uma boa conversa, de preferência em uma mesa de bar e com boas companhias! E que saudades tenho dessas conversas!
    Imagino tua frustração por perdido a oportunidade de saber um pouco mais dessa festividade judaica e, ainda, ter presenciado um monólogo!
    Difícil julgar, difícil saber o que passa na cabeça dessa conversadora compulsiva!
    Você, com certeza, conseguirá as informações que você queria de outra forma e a a conversadora continuará a azucrinar outras “Nicoles”!
    Sabe o que me incomoda mais do que os monólogos? a pessoa não olhar nos teus olhos enquanto fala! Uma vez, em um evento social de quando eu era fiscal de tributos em MG, comecei uma conversa com um senhor virava a cabeça para o lado, uns 45 graus. Depois de alguns angustiantes minutos, eu comecei, discretamente, a girar no sentido dos olhos do meu interlocutor! Mas ele percebeu e sempre que eu girava, ele girava na mesma proporção, mantendo a angulação. Depois de girarmos 360 graus, que parecia alguma espécie de ritual, eu desisti e mantive a conversa até que eu conseguisse me afastar, de maneira educada!
    A vida tem dessas coisas, e você, com teu talento, conseguiu produzir, a partir de uma frustração, um belo texto! Parabéns! Bjs

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    1. Kkkkkk imagino esse confronto dos olhos! Compartilho da mesma agonia quando alguém não olha pra mim quando estamos conversando. Parece que não está prestando atenção. É tipo quando tem uma conversa e alguém pega o celular. Caramba!!

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  11. Prefiro uma boa conversa, mas penso que a pessoa passa por algum problema pessoal.
    Eu estudei o judaísmo, e ainda tenho alguns livros como O Ser Judeu. Estive em 3 sinagogas na minha vida. No sótão está uma menorá. Hoje não quero mais saber do judaísmo. No entanto, reconheço que é importante conhecer as culturas.
    Lembro que há alguma semelhança o acender as velas com o acender as velas ao menino Jesus, uma tradição que parece estar rara nos lares cristãos .

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    1. Nunca entrei em uma sinagoga, mas quando viajo para a Europa gosto de visitar os bairros judeus. Não sei porque, mas é parte da história que me interessa. Nunca parei para estudar afundo, quem sabe um dia. Faz sentido essa relação com as velas ao menino Jesus e realmente é raro ver em lares cristãos. Obrigada!

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