O Rio tem dessas coisas

O texto de hoje não é apenas sobre o Rio. É sobre falar daquilo que já viveu ou conhece. Antes de começar, comparo minha relação com ele ao de um familiar irritante. Amo de paixão, mas tem horas que preciso de espaço. Por isso, vou e volto.

São tantas coisas e sentimentos que o Rio traz. Natureza maravilhosa, pessoas alegres, cerveja em pé, samba, espontaneidade, energia vibrante, cores. Tudo isso misturado com violência, trânsito, espaços lotados, correria, medo, desigualdade.

É a beleza e o caos no mesmo espaço. O retrato sem filtro da nossa sociedade. É onde as pessoas passam férias. Atrai turistas do mundo todo o ano inteiro.Também é onde trabalhadores ficam enlatados como sardinhas no trem que sai de Japeri rumo à central.

No Rio, você sai estressado do trabalho, vira a esquina e encontra um samba descontraído. Sorri, encontra amigos e esquece o dia mais ou menos. Acontece isso nos finais de semana: tchau sofrimento, agora vou curtir uma praia. Ou uma cachoeira. Ou um churrasco. São muitas opções.

Um ciclo vicioso que transita entre o cansaço de viver o tanto de maus tratos recebidos e o contentamento por estar em um lugar tão abençoado. Sem dúvidas, é abençoado. Há belezas infinitas no meio da loucura. A luta diária por sobrevivência com sorrisos sinceros é um grito de tem que dar tudo certo.

Difícil alguém não se apaixonar. É bom conhecer para poder falar. E, sei lá, viu? Pode ser que realmente tudo melhore. Uma borboleta não nasce borboleta, não é? Talvez a confusão faça parte do processo. O Rio tem dessas coisas.

Foto autoral. Fim de tarde em Ipanema / Rio de Janeiro, 2020.

32 comentários sobre “O Rio tem dessas coisas

  1. mariogordilho

    Nicole, tenho o mesmo sentimento pelo Rio, amor e repulsa (ou seria pena, compaixão? Não sei). Adoro ir ao Rio, costumo ir várias vezes ao ano, ainda não fui nesse ano maluco, tô em crise de abstinência aqui no cerradão. Mas não me vejo morando aí. São Paulo desperta sentimento parecido em mim, adoro a cidade, mas apenas nos fds. Há alguns anos venho desenvolvendo uma impressão bem negativa sobre os moradores do Rio que gostaria de compartilhar aqui, mas espero sinceramente estar errado, até mesmo porque envolve a minha família, que em sua maioria mora aí. Eu vejo uma crescente degradação moral dos cariocas nos últimos anos, que só aumenta com o crescente número de mazelas, seja no dia a dia violento e desigual, seja na inacreditável política do estado e do município. Vejo um povo entristecido nos transportes públicos e nas ruas, pouco ou nada empáticos com a dor alheia ou com o direito do próximo. Vejo pessoas sem esperança, que em cada eleição conseguem eleger os piores, os que melhor entendem o atual estado de espírito do carioca e se aproveitam disso. Enfim, sinto, com muito pesar, que o Rio entrou numa espiral de negatividade que parece afundar cada vez mais a cidade. O carioca deixou há muito tempo de ser aquela pessoa alegre, receptiva, cativante, que o diferenciava do resto do país. Bom, como disse, tomara que eu esteja errado nessa minha visão negativa da cidade, pois é a que mais amo, embora ache que não me encaixe mais nela. Tomara que seja um reinício, uma retomada aos bons tempos da cidade. Será bom ler os demais comentários sobre seu post de hoje, que está excelente, como sempre.

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    1. Que interessante seu olhar, Mário! Realmente nossas visões têm a ver com nossas experiências e as pessoas que aparecem no caminho. Fiquei 6 anos fora do Rio e já viajei bastante, mas não conheço lugar mais alegre. Inclusive sentia muita necessidade de passar uns dias aqui para “resgatar” minha energia carioca, por vezes me sentia apática em Brasília. Sei lá, sentia falta de proximidade das pessoas, relações mais espontâneas.
      Mas pode ter a ver com os lugares e pessoas que convivo aqui no Rio. O que vejo é uma sensação de anestesia em relação ao caos, pode ser isso que você vc como falta de alegria. Será? Até nas minhas voltas por aqui nesses dias tenho achado tudo vibrante, apesar os pesares. A questão política é muito complexa, acredito que seja em nível nacional.
      Quando morava em Belém, ficava angustiada por ver tão claramente a corrupção e nunca chegar até as famílias políticas. Acho ruim para o país esse enfoque no rio e esquecimento dos outros. Tem que punir todos de uma vez. O rio é o reflexo do que nosso país está vivendo, infelizmente. E é o espelho do Brasil para o mundo.
      Diz aí o que acha!! 🙂

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      1. mariogordilho

        Sim, concordo que o Rio é o espelho do Brasil. Sempre foi, para o bem e para o mal, e os paulistas se mordem com isso! Rsrsrs.. . E o país inteiro vai mal, muito mal. Nossa imagem internacional é a pior possível. Mas meu ponto é que a degradação moral do Rio, dos cariocas, alimenta as mazelas da cidade. Algo espiritual mesmo. Negatividade atrai negatividade. O espírito alegre do Carioca, a malemolencia, a flexibilidade, características que eu ainda acho guardar das minhas origens, eu admiro. A mania de levar vantagem em tudo, que ficou conhecida como lei de Gérson, de passar pra trás o outro, a apologia ao errado, a deseducação do povo nas ruas, a agressividade até mesmo nos atendimentos do dia a dia, tudo isso se reflete nas escolhas políticas do Rio. Witzel, por exemplo, foi eleito por sua plataforma política, foi um ato consciente do Carioca médio, que quer vingança, e não justiça. Ele quer eliminar o perigo, ainda que inocentes paguem o preço. É cada um por si, esse é o pensamento do Carioca médio, não há um pensamento coletivo. Nas condições atuais, morais, do povo, obviamente guardando as exceções que cabem em toda generalização, acho muito difícil nossa querida lagarta virar borboleta de uma hora pra outra. Mas pra finalizar de forma positiva, o Rio certamente evoluirá, esse é o destino de todos nós. Mas como já disse outras vezes, essas mudanças são geracionais. Aguardemos.

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      2. Entendo o que quer dizer, Mário. É, não da pra generalizar. Eu realmente vejo muitas dessas questões como um movimento no contexto nacional. Tanto que foi eleito o atual presidente.
        A diferença pode ser que o carioca é mais sem noção e sem muitos rodeios. Algumas cidades, como Brasília, as pessoas são mais podadas e políticas. Elas não agirem de forma agressiva não quer dizer que não sejam, pensem ou articulem. É muito complexo.
        Eu não gosto muito de colocar todos em uma mesma caixa. Por exemplo, todos criticaram as praias do rio lotadas e reclamaram do comportamento dos cariocas. Mas nordeste estava lotado, São Paulo estava lotado, chapada estava lotada. Esse foco no Rio reforça a imagem que você tem, mesmo quando em muitos outros lugares tenham pessoas com as mesmas características. Enfim, ser humano é complexo! Não tem perfeição. Vamos aguardar com esperança!

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  2. Alex Antunes

    Não vou falar do Rio, porque não conheço a cidade, mas sendo uma metrópole, gostaria de falar das metrópoles ou das cidades grandes. Infelizmente a vida nas cidades grandes tem perdido a qualidade de vida. Moro em um cidade do interior de Minas Gerais e, por a cidade estar se expandindo, crescendo (no mau sentido), a qualidade de vida piorou muito. Saímos de um Brasil rural, agrícola na década de 1950 para um Brasil urbanizado, muito mal urbanizado por sinal, a partir das décadas de 1960, 1970. Não quero dizer que as cidades grandes não tenham coisas boas, nem que só cidades pequenas é que prestam. Mas talvez o processo de urbanização do Brasil poderia ter sido mais mais organizado, com menos impacto sobre as próprias cidades. Sei lá! Espero não estar fugindo muito do assunto do post.

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    1. Concordo com você, Alex! Nosso crescimento foi desorganizado. Por isso Brasília não sofre dos mesmos males, já que foi totalmente planejada. O lado negativo? A pobreza está afastada de onde a classe média e ricos moram, ficou isolada e escondida. Como se não existisse.
      O rio foi capital do Brasil por muito tempo e o crescimento foi acelerado. As favelas são super antigas e cresceram dentro da cidade. A desigualdade não é mascarada. Todos convivem na mesma praia. E também é um município relativamente pequeno em termos de território, o que fez o subúrbio expandir para o entorno. Muitas cidades e bairros distantes do centro são dormitórios. As pessoas precisam de longos deslocamentos para trabalhar.
      Enfim, não sei se fui confusa! São muitas questões… 😃

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      1. Alex Antunes

        Não, não foi confusa, não, Nicole! Obrigado por sua explicação sobre a situação urbana do Rio de Janeiro. Pra quem não conhece o Rio, ajudou muito a compreender melhor o Rio. Obrigado! 🙂👍

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  3. elcieloyelinfierno

    Entrada maravilhosa! As contradições do Rio com suas luzes e sombras é o que surpreende o viajante um tanto esclarecido, que viaja não só pelo prazer de suas praias e belezas naturais, mas também para se fundir naquele tumulto social em que na maioria das vezes ele diverte. e adicionar novos amigos, outras vezes você vê a escuridão mais profunda que produz tristeza e confusão. Eles são como as máscaras que representam o teatro. Espero ver essa transformação de lagarta em borboleta um dia. Seria a cereja do bolo naquela cidade maravilhosa. Uma saudação cordial.

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    1. Exatamente! São justamente essas contradições e confusões que atraem pessoas de todo mundo. E é difícil não ficarem encantados!
      O Rio tem uma espontaneidade singular no futebol, nas praias, nos bares, nos encontros.
      Também quero ver a transformação! Abraços e muito obrigada! 🌻

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  4. Boa tarde Nicole!!
    Então não posso falar sem conhecer..mas faco aqui um comparativo do Rio com a Minha cidade..no quesito stress aqui e unânime ao que diz respeito ao trânsito,transporte publico,e a falta de respeito e amor ao proximo,paciência e algo dificil de se ver na correria do dia dia..nao que justifique …mas temos mtas coisas boas a oferecer tbm..pontos turísticos,restaurantes etc..mas independente de qquer ponto de vista ainda assim eu amo a minha terra da garoa!!
    Abraço..fica c Deus

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    1. Boa tarde, Renata!! Eu te entendo muito. Também adoro São Paulo! As grandes cidades levam esses tantos problemas, não tem jeito. Tem ônus e bônus. Não dá para comparar uma cidade ou capital pequena com outras como Rio e SP que estão abarrotadas de gente. É até injusto!
      Vamos amar nossas terrinhas e tentar cuidar delas! 😍
      Fica com Deus também!

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  5. Morar no Rio, às vezes, me passa a impressão de ser casado com uma linda, mas problemática mulher: apesar da paixão, o divórcio é inevitável. No entanto, ao observar outros lugares, percebo que são tão ou mais complicados. A cidade, que já foi maravilhosa, é o microcosmo de um país entre a corrupção e a violência, e esses dois problemas são escolhas por comportamento alienado tanto da população local quanto nacional.

    PS: Antes de eu ir embora, espero que uma coincidência me possa fazer encontrar o seu sorriso caminhando pela orla.

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  6. Hudson José Capanema

    Complicado, né? Difícil sequer imaginar um lugar só com coisa boa! Se no Rio, com todas as maravilhas que atraem turistas do mundo inteiro, não tivesse violência, trânsito caótico, medo e desigualdade, seria o paraíso! E poderia ser, senão o paraíso, um lugar bem melhor, não fosse a ganância e a corrupção endêmica!
    Conheço muito pouco o Rio, para fazer um comentário mais acurado! Mas com todas as mazelas, sempre será um lugar abençoado e bonito por natureza!
    E se você quiser voltar, Brasília estará de braços abertos!

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    1. Verdade! Lugar perfeito não há. A Europa mesmo… eu adoro viajar pra lá, mas sempre falta algo. Ou a energia do povo ou belezas naturais. Enfim, há sempre ônus e bônus. E Brasília está no coração, uma hora terei que voltar kkk

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    2. Hudson José Capanema

      Das cidades que eu conheci, não foram tantas, a que mais se assemelha ao Rio, pelas maravilhas naturais, é Vancouver. E lá não tem violência, bem menos desigualdades, bom transporte público, e você não teria dificuldade em fazer amigos! Mas não vai encontrar a energia e alegria do carioca, samba e cerveja em pé, e o churrasco é BBQ. Em tudo, você terá prós e contras, ônus e bônus! São as nossas escolhas. E feliz de quem pode fazê-las!

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  7. Em frente ao apartamento onde morei tinha muito ipê-amarelo (Tabebuia chrysotricha), símbolo oficial do Brasil – alguns deles a uns cinquenta, a cem, a duzentos metros de distância, podiam ser vistos do nosso apê. Mudei-me recentemente, ainda em BH, e daqueles tantos restam seis.

    Grato pelas visitas ao UAÍMA.
    Darlan M Cunha

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